As coisas que ficam
Eu queria montar um texto. Estou sem pc até amanhã, então vai pelo celular mesmo, erros à parte.
Primeiro, uma recomendação, o texto do Olavo sobre as 12 camadas da personalidade: https://www.google.com/url?sa=t&source=web&rct=j&url=http://olavodecarvalho.org/wp-content/uploads/2017/06/As-12-Camadas-da-Personalidade.pdf&ved=2ahUKEwiriIz63NX2AhWnuJUCHWXaDAwQFnoECCIQAQ&usg=AOvVaw3CVrPYr8OD-YVBCboq_lgS
O tema tem a ver com isso. As camadas que interessam são da 8 em diante. Em geral são pra adultos bem firmados, mas ao menos por imaginação é possível imaginar ações a partir delas.
Todas as ações que fazemos têm cada uma seu valor, mas não igualmente. Praticamente ninguém maia conhece Tex, os filmes de super-homem ou homem-aranha do passado: é outro estilo, outra tecnologia de filmagem, outros temas, e não está na efervescência do momento. Assim como memes, notícias etc., tudo isso faz parte do capítulo de novela da vez que chama atenção do público e logo vira só lembrança nos mais velhos, os mais novos já estão em outras coisas. Logo, não resta mais vestigio. Se dilui no tempo e praticamente some.
Sem essa consciência, boa parte das nossas ações se focam mais nessas coisas que se dissolvem rapidamente. A UFRN Democrática, na liderança do Rodrigo Maker, tentou limpar a pixação do Setor I. É óbvio que seria repixado. Não adianta ser esperançoso e querer que o mundo se comporte como queremos: ali era uma área de humanas, e é local onde ae aglomeram pessoas que gostam de pixar. A verdadeira "ação que fica" que poderia ter sido feita nesse dia seria enfrentar a uma pessoa, ainda que só o líder, tomando a frente dos voluntários para garantir diálogo ou enfretamento pessoal, que ficou ali cpm uma cadeira protegendo o "coração" do setor I e das Humanidades, que é o DCE. Ali era não só o local mais pixado, como daria uma prova, a essa pessoa em 1o lugar e à univeraidade em 2o que havia uma onda a fim de "limpar a universidade da sujeira ideológica". Isso não aconteceu e tudo foi repixado, obviamente. E de quebra a direita perdeu toda a autoridade daí em diante.
É preciso tomar consciência disso o quanto antes. Com os anos, os jovens têm cada vez menos tempo. Então seu idealismo também se dissolve em ânsia por sobrevivência. É preciso correr e descobrir coisas fixas pelas quais valham a pena dedicar seu tempo livre no lugar do lazer, pelas quais você se sacrificaria, porque são essas coisas que dão o seu diferencial independente da carreia que seguir. Sem isso, você ocupa um território, com mais ou menos sinceridade, mas essa posição poderia ser ocupado por qualquer outro e no fundo não teria nenhuma diferença. Rodrigo Maker liderou aquela ação totalemente já "apagada" no tempo (so permanece e olhe lá na memória de pouquíssimos): sua posição poderia ser minha, sua, de qualquer outro, não teve nenhuma originalidade, força pessoal que o destacasse. E assim as coisas morrem.
Eu não vi até o momento nenhum político nem nada que me mostrasse algo de mais interessante (admito que não pesquiso muitl também kkk). É só manutenção do momento, não importa se há ações boas ou ruins. É melhor se tiverem boas ações, mas fora do plano de conaciência das "coisas que ficam", de qualquer modo tudo caminha pra destruição e morte, seja da religião, seja da cultura, seja da moralidade da população (então tudo se desgraça, incluindo economia). Essa relação é difícil de perceber espontaneamente sem estudar, mas ela existe e é provada incansavelmente, na teoria e na prática.
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Colocando de forma mais prática. As entrevistas no Guinada Cultural são algo que fica. Não tanto assim, mas vamos lá. Não importa se você vire político ou se desista de tudo, ou até se morrer, o canal deixa um conjunto de depoimentos de possibilidades de cultura natalense. Em certo sentido, é uma trabalho etnográfico, como, em parte, foi o do Cascudo (mas ele fez mais que isso). Esses depoimentos, na sua pessoa, se condensam como uma rede de contatos aos quais você pode eventualmente aproveitar para algo. Na de um investigador, ele também pose fazer o mesmo e/ou integrar esses trabalhos em uma investigação pessoal, maior ou não. É algo que vai além da política diária, porque a política diária se basta no dia, mas esses depoimentos são de experiências que formam pessoas. (Eu vi este aqui: https://m.youtube.com/watch?v=cWan2H2lkHE). Eu não tenho sugestão, não é meu trabalho. Mas pense nesse fluxo formativo, que está abaixo e além da política e da religião, porque antes de ser político, padre ou pastor, essas pessoas são brasileiras, formadas na nossa cultura, com nossos acertos, mas sobretudo nossas ausências. Se você estuda a experiência religiosa profunda, mística, vê que o que temos aqui é uma total destruição. Idem, um nacionalismo que não se baseia no conhecimento do que tivemos de melhor "do que fica", mas sim apenas por um sentimento de exaltação por um passado que brilha momentaneamente, mas que fracassou.
Para depoimentos disso tem o livro do Ângelo Monteiro, tratado de lavação da burra. O do Olavo, o futuro do pensamento brasileiro. Para entender mais brevemeente que coisas são essas, pense assim: o Brasil é só uma porção de terra, com uma história humana. Eventualmente o Brasil vai acabar, a língua portuguesa vai acabar, e o que o futuro quer saber é que soluções nós legamos pra eles. É o que os antigos chamavam de "os grandes feitos": as grandes guinadas da história por homem heroicos mostram pessoas que todas as épocas querem conhecer, porque querem ser assim também. A diferença entre esses homens e quem cumpre a política do dia, com mais ou menos bom-mocismo, é de planeta. O que sobra do Brasil são as grandes soluções que demos. Olavo legou um depoimento gigantesco da sobrevivência do espirito numa terra totalmente seca e perdida. Mário Ferreira dos Santos legou o ápice do pensamento humanista do século XX. Otto Maria Carpeaux legou uma das técnicas mais finas da compreensão e inteligência humanas. E são essas coisas que interessam a um brasileiro do futuro, a um japonês, a um russo, a quem quer que seja de qualquer época, passada ou futura.
Um outro exemplo, para apoiar nas 12 camadas.
1- Uma coisa é você escrever narrativas. (Como tem aos montes em qualquer cidadezinha).
2- Outra coisa é escrever sobre a sua cidade: existe um critério fixo, as obras somam umas com as outras, ainda que o tema seja irrelevante. Mas como toda cidadezinha se parece, dá pra usar como analogia. E mesmo, dependendo do grau de consciência do autor, extrair ideias gerais sobre qualquer cidade. (É raro, em geral o autor tem 0 ideia, mas o leitor pode usar, como no exemplo das entrevistas do Guinada).
3- Outra coisa é, como Machado de Assis, descrever o "Mal banal". Ele tem esse tema fixo: todas as suas personagens são más, mas não grandes assassinas; cometem maus menores, mas que geram efeitos horríveis. Machado legou um depoimento extenso de casos assim. Nelson Rodrigues, por exemplo, também tinha essa capacidade, mas seu tema foi muito mais restrito: foi especificamente o mal da paixão. Machado tem esse, mas é só um dos muitos outros casos variados.
4- Uma outra coisa ainda é ser Machado, ler Machado ou, por exemplo, sistematizar essas obras numa teorização sobre o Mal. Em 3 ele está descrito, mas de modo esparso; aqui ele será ordenado e generalizado. Perceba que humanista nenhum nosso sequer fez isso. Nem isso. Teve o Pondé escrevendo bobagem sobre Nelson Rodrigues, chamando-o de filósofo, o que demonstra que ele não sabe nem o que é o item 3, nem 4. Essa teorização seria monstruosamente útil, não só pro Brasil.
5- Agora imagine a distância de um político comum e de um que aja com base nesta teorização do Mal. Mais ainda, mesmo sem ser político: imagine o grau de consciência, a quantidade de fatores que uma mente leva em consideração, mesmo sem pensar conscientemente (como ao ter ideias espontaneamente), depois de passar pelo item 4. A diferença do 3 pro 4 é entre o teorizador e o prático. Um prático pode ser o que fez a teoria, mas ele sai da mesa e vai pra vida.
6- Só como complemento, é esse "Mal" que ele usará pra entender a linguagem religiosa. A distância da ação sacerdotal comum, que só absorve algo das escrituras, pra que adquire um senso afinado do legado cultural humano é tão distante quanto a de um Napoleão, um Stalin, um Sócrates, e qualquer politico da câmara dos vereadores de a cidade de 10 mil habitantes.
Para ilustrar, (1) é algo abaixo da camada 8; (2) é camada 8, (3) é camada 9, (4) é cada 10, (5) é camada 11, (6) é camada 12. Olavo estava na camada 12.
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Por fim, em geral o brasileiro que quer reagatar o Brasil imperial, nunca nem ouviu Villa-Lobos, bem sabe o gigante valor dele para a história da música universal. Não sabe que temos óperas brasileiras, nada. Ele consome cultura pop americana (super-heróis, música pop ou rock etc, jogos) ou japonesa (animes, j-pop etc) ou coreana ou chinesa, mas se apaixonou pelo vislumbre de um passado ao qual não tem nenhuma raiz nem medida do valor real. Sua imaginação e a lealdade dela no fundo está em outro lugar, e não na melhor parte desse lugar: não está na cultura erudita desses países. A pessoa não estuda T.S Eliot, Wordsworth, Buttler Yeats pra língua inglesa, nem o haiku, o noh ou kabuki pra japonesa, nem os clássicos coreanos ou o grande legado de poesia e filosofia chinesas que alimentou e alimenta toda a Ásia profunda. Nada, só banalidade. E verdade que no meio podem ter algumas raríssimas pérolas, mas nós não temos pessoas qualificadas para distingui-las. Nem no Brasil nem fora. Então é tudo vaidade quem se acha superior por consumir DC e não Marvel, Sandman e não hentai. Tudo tudo bobagem. No fim todas essas obras se dissolvem no tempo: sobram as firmes e uma ou outra da nossa época. O resto é como passar pelo buraco da agulha.
Ficou mais longo do que eu esperava, e provavelmente mais chato. Não sei se será lido, mas escrito foi. Se escrevo é porque pressinto que devia ser escrito.
Esta é a última fofoca que me meto, não sei até quando. Passei por uma fase bem ruim de 2019 pra cá, e perdi muito tempo na vida. Preciso recomeçar tudo. Mas se você ler, espero que leve isto em conta. Essas são coisas que ficam. Não foque só no temporário, se não quiser ser só mais uma sombra deste mundo. Existe uma diferença entre ser bonzinho (um político que doa seu salário etc etc) e ser Bom. Espero que você possa entender isso quando for a hora.
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